Hoje à noite, no Teatro Álvaro de Carvalho, apresentam-se Pablo e Juan Rossi, ao lado de Alexander Grothe, no terceiro concerto da série Promenade.
O trio esteve ensaiando no sábado na Sonorità, e aproveitamos o momento para uma entrevista exclusiva com Pablo Rossi, que você confere abaixo.
Rossi é pianista, vencedor do I Concurso Nacional Nelson Freire para Novos Talentos Brasileiros (2003), o concurso Magda Tagliaferro (1998), Encuentro Internacional de Jóvenes Músicos (Córdoba, Argentina, 2001) e o Concurso Internacional “Ciutat de Carlet” (Carlet, Espanha, 2002). Atuou como solista frente à Orquestra de Câmara do Kremlin, Orquestra de Câmara de Moscou, Orquestra Sinfônica de Kirov, OSESP, OSB, OER, Orquestras Sinfônicas do Paraná, Santa Catarina, Ribeirão Preto, Sergipe e Salvador, entre outras. Em dois anos, fez mais de quarenta recitais na Europa, Estados Unidos, África e América Latina. Gravou seu primeiro CD aos 11 anos de idade, com obras de Chopin, Bartók, Schumann, Tchaikovsky, Rachmaninoff, Shostakovich e Nepomuceno. Em 2008, lançou o CD “Pablo Rossi Live at Steinway Hall”, com obras de Mozart, Villa-Lobos, Prokofiev e Chopin, gravado ao vivo em Londres. Atualmente, reside em Moscou, onde cursa a faculdade de piano no Conservatório Tchaikovsky, integrando a classe da renomada professora e concertista Elisso Virsaladze, agraciado com bolsa de estudos do Governo do Estado de Santa Catarina.
Concertos Promenade
Meu principal objetivo através destas apresentações com um formato diversificado é criar uma tradição musical de concertos mensais, ou seja, criar a “cultura” de programas musicais que estarão entretendo frequentemente o público. Hoje sabemos que a música clássica de maneira geral está sofrendo uma perda de público progressiva, e pensando em resgatar novamento esses espectadores (crianças, adolescentes, adultos e idosos), nossa ideologia é poder oferecer uma nova roupagem para esses eventos, de uma maneira dinâmica, utilizando recursos audiovisuais, e didática. Criando uma atmosfera informal e acessível aos ouvintes, estamos aos poucos formando uma plateia constante, cada vez mais presente nas apresentações e sedenta pelos futuros projetos!
Abordagem temática
Cada concerto mensal está inserido dentro de uma temática previamente estudada e formatada. Fizemos na abertura uma homenagem a Liszt e Mahler (bicentenário de nascimento e centenário de morte, respectivamente), e na nossa segunda edição dedicamos o concerto à música russa e seu folclore. Para o encerramento, em dezembro, faremos uma apresentação única, com a fusão da música e da pintura. No concerto de amanhã, o objetivo é homenagear Piazzolla. Sempre tive uma grande admiração pelas obras dele, e pude realizar meu plano de executá-las em um concerto formal. Além disso, o público acompanhará toda a trajetória de Piazzolla, desde seu rompimento com o tango tradicional, passando pelo seu período de imersão na música clássica (época em que estudou em Paris), até o surgimento do “novo tango”.
O estudo no exterior
Infelizmente, para se poder adquirir uma formação musical completa em todos os sentidos é indispensável a vivência adquirida nos grandes centros europeus da música. Lá, a tradição é outra. São outros os mecanismos de produção musical e também de valorização. Vivemos em uma atmosfera muito mais acolhedora em termos profissionais e artísticos, campo fértil para podermos desenvolver nossa visão musical e pessoal.
Concertos no Brasil
Em minhas viagens ao Brasil, faço questão de trazer um pouco dessa cultura musical ao nosso ambiente local. Hoje nosso país vive um momento de grande projeção internacional, com uma produção econômica cada vez mais ativa. Dessa maneira, acredito que seja obrigação de nossa sociedade buscar uma cultura elaborada, de qualidade e diversificação. Acredito que minha função como artista seja justamente transmitir um pouco de minha experiência e vivência adquirida nesses anos através de apresentações e eventos culturais.
Shostakovich, um artista sob o jugo comunista
A inclusão no programa de obras de Shostakovich, pode-se dizer, foi a união do útil ao agradável, já que Piazzolla teve muita influência dos compositores clássicos do começo do século XX, principalmente Ravel, Stravinsky e, por que não?, Shostakovich. Sou também profundo admirador dele e de sua trajetória musical. Gostaria de destacar o grande dilema que influenciou grande parte da produção musical dele: o preconceito e pressão exercidos pelo governo comunista da União Soviética. Como sabemos, grandes músicos e artistas que viveram durante o comunismo na Rússia muitas vezes emigraram clandestinamente para outros países além da cortina de ferro, e ali se estabeleceram definitivamente, deixando seu passado soviético para trás. Já Shostakovich viveu sua vida toda sob pressão do regime vermelho, sendo muitas vezes obrigado a sacrificar seus ideais musicais em prol de sua subsistência! Suas obras possuem, sem dúvida alguma, marca registrada de um Shostakovich idealista e batalhador pela integridade do artista. Nas obras a serem apresentadas no programa do concerto, o público escutará um Shostakovich mais leve, com humor pouco sarcástico e de extremo brilho.


